Olá!

 

Venho falar-vos um pouco sobre a Turquia, país assinante da Declaração do Milénio e local onde, como sabem, estou a viver, ao abrigo do programa Erasmus.

A Turquia vive um constante confronto dentro de si, sendo portanto um país de difícil definição. Tanto estamos vidrados e vidradas a ver a paisagem mais maravilhosa, como de repente rodamos a cabeça 5 graus e lá está a mais fiel definição de pobreza. Num momento passa um dois cavalos a cair de podre com 7 membros da família dentro, como atrás vem o melhor Porsche Cayenne, com a maior dondoca. Porém e honestamente, por mais Cayennes que tenha visto (e já vi bastantes), os carros, carrinhas e motas velhas fazem muito mais estas estradas. Assim é a vida real: em Istambul, Ankara, Izmir e algumas estâncias balneares a sul existe um pouco de espaço para a riqueza, mas tudo o resto é árido e extremamente pobre.

 

O GOVERNO

O governo é liderado pelo partido AKP, Adalet ve Kalkınma Partisi, partido pela justiça e desenvolvimento. Como sempre os nomes são maravilhosos!

O AKP é um partido de direita conservadora, extremamente ligado à religião muçulmana e dedicado a fazer com que a conduta religiosa se misture cada vez mais com a estrutura política e legislativa deste país.

No passado, a Turquia teve um líder muito carismático, de nome Ataturk. Este homem está para os Turcos como o Che ou o Fidel para os Cubanos. Todas as escolas têm um retrato do Ataturk, está em todas as vielas, é nome de centenas de ruas, tem estátuas em todo o lado e  apesar de muitas dúvidas poderem ser levantadas quanto ao método das conquistas e edonismo, foi ele o responsável pela democratização e modernização da Turquia no século XX, bem como pela separação entre poderes religiosos e governação. De forma que se assiste a um claro revés em termos de direitos, valores e oportunidades, à medida que o AKP toma as rédeas da liderança.

 

A TURQUIA E O IRÃO

O AKP mantém uma amizada de longa data com o partido do poder no Irão. E segundo muitos turcos, pretende transformar a Turquia à semelhaça do governo Iraniano. O que é potencialmente preocupante, já que o Irão é dos países muçulmanos mais extremistas e, neste momento, dos únicos capazes de desafiar os EUA.

Por falar em EUA, os turcos são completamente fanáticos pela América. Para eles a única coisa que existe é a cidade ou vila em que vivem (pois não têm o hábito de viajar pelo seu próprio país) e a América. Querem ir estudar para lá e têm cursos de cultura americana.

 

CENSURA, GOVERNO ANTIDEMOCRÁTICO e EXÉRCITO

No passado fim-de-semana tiveram lugar as eleições autáquicas. Toda a gente aqui sabe que o AKP andou a comprar as populações mais pobres e dividiu a geografia e sistema eleitoral do país, para garantir a sua permanência no poder.

Como ?

As zonas mais populosas, como os centros citadinos que acima referi, estão a virar-se cada vez mais à esquerda, o que significa que cada vez mais habitantes estão contra o governo. Perante isto, o Governo decidiu que um autarca será eleito em função do número de regiões que conquistar, em vez do número de habitantes. A SEGUIR a esta alteração, discretamente alterou a delimitação das regiões de voto. E regiões com muitos habitantes, como o caso do centro de Izmir e Bornova onde estou, passaram a valer tanto como zonas circundantes de Izmir vazias e com recursos escassos. A SEGUIR foi a estas regiões mais pobres e começou a oferecer comida, roupa, frigoríficos, enfim… Tudo o que possam imaginar, a quem se comprometesse a votar no AKP. Como estas áreas são mesmo muito muito carenciadas e temem o pior caso não votem nele, não resta outra alternativa. Aliás, na própria mesa de voto, em algumas regiões perguntaram “O AKP foi o partido que lhe ofereceu o cabaz, é o partido que está preocupado consigo. Não acha que devia votar nele?”

Reacção da oposição?

A oposição não pode fazer nada. O AKP tem muito dinheiro e mesmo que tentasse jogar da mesma maneira, não tinha qualquer hipótese. Além de que censura os jornais e controla as manobras da oposição para fazer chegar a verdade às populações. Para perceberem a dimensão da censura, li na semana passada num jornal em Inglês, que a revista científica mais conceituada tinha sido proibida de publicar um artigo sobre a teoria de Darwin, por ser contra a religião. Além da censura, o AKP tem muitos tentáculos. Contaram-me de alguns despedimentos por força da resistência ao governo e situações afins, como cortar a atribuição de fundos à imprensa e ong’s. É portanto perigoso fazer oposição, as pessoas têm medo, receiam as consequências de denunciarem esta situação.

A nível mundial também não se pretende que isto se saiba. Porque os EUA e a Europa precisam da Turquia para apaziguar o Irão e outros estados tempestuosos como o Iraque.

Não se esqueçam que a Turquia faz fronteira com Georgia, Arzebeijam, Armenia, Nakhitchevan, Irão e Iraque além dos territórios Europeus da Grécia, Roménia, Bulgária, Ucrânia e, claro, Russia…

Desde sempre a Turquia foi um território estratégico, pela proximadade geográfica entre a Ásia e a Europa. Razão pela qual se acresce a necessidade de protecção. Não é à toa que possui a segunda maior força militar do mundo,  a seguir aos EUA.

 Voltarei para vos falar do Kurdistão, do genocídio na Arménia e do Chipre.

Beijinhos e Lãzudos

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